Memórias da Dicró – Luciana Adão

Luciana Adão _foto

Olá gente! Que esse texto lhes encontrem bem.

Nossa série segue por aqui, trazendo memórias desse espaço cultural tão querido da região da Leopoldina, a partir de contribuições de pessoas queridas por nós.  No episódio de hoje, quem cola aqui no blog é Luciana Adão.  Luciana é Produtora Cultural graduada pela Universidade Federal Fluminense, especialista em Gestão da Cultura e Gerenciamento de Projetos – metodologia PMI. Atua na formulação de parcerias estratégicas e políticas culturais, gestão de equipamentos culturais e desenvolvimento institucional de programas de fomento à cultura. Entre 2013-2016 foi diretora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Coordenadora de Equipamentos Culturais da Secretaria Municipal de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, responsável pela reestruturação administrativa,qualificação dos espaços e participou da formulação dos programas de fomento à cultura e do fomento olímpico. Atualmente é Coordenadora do Programa de Patrocínios Culturais Incentivados do Oi Futuro. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.  

Segue abaixo o texto de Luciana. Boa leitura e até a próxima! Fiquem bem e se cuidem.

Qual é a importância de um equipamento cultural público para a cidade?

Em tempos onde se questiona o papel da cultura, a necessidade de orçamento, fecham-se e transferem-se equipamentos públicos – reflito aqui.  Qual é a importância da Arena Dicró ou ampliando espectro – Qual é a importância de um equipamento cultural público para a cidade?

Tive o privilégio de fazer parte da gestão municipal de cultura no período de 2013-2016, primeiro como diretora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e posteriormente assumindo e implantando a Coordenação de Equipamentos Culturais – 55 no total entre arenas, bibliotecas populares, centros culturais, lonas, museus e teatros. Esses equipamentos estão distribuídos entre as 5 áreas de planejamento do município (AP) com maior concentração nas APS 1 e 2 ( Centro e Zona Sul), portanto, recebendo também a maior quantidade de projetos e produções artísticas.  Com o objetivo de descentralizar e promover a circulação da produção cultural da cidade, a Secretaria de Cultura desenvolveu entre suas três coordenadorias (Diversidade Cultural, Fomento e Equipamentos Culturais) ações estratégicas voltadas para o fomento e desenvolvimento da cena local nas APS 3, 4 e 5 (Zona Norte e Zona Oeste).

A rede de lonas e arenas culturais foi fundamental para a efetivação dessas políticas. As arenas culturais foram inauguradas em 2012 e possuem estruturas mais complexas do que as lonas – com diferença de tamanho, estrutura, equipamento e repasse financeiro. São 4 arenas distribuídas pelos bairros de Guaratiba, Madureira, Pavuna e Penha Circular. Ao longo da gestão foi estabelecido um fórum periódico que reunia dirigentes dos equipamentos e a equipe da secretaria municipal de cultura para promover a troca de experiências e a colaboração entre as gestões – possibilitando compartilhamento de recursos e circulação de projetos e atividades culturais.  A Arena Carioca Dicró – Carlos Roberto de Oliveira, gerida pelo Observatório de Favelas, possuía a equipe mais jovem à frente da gestão e uma das mais participativas e ativas no fórum.

Situada dentro do Parque Ary Barroso, na Penha Circular, a arena tem uma estrutura das mais afetivas e receptivas dentre os demais equipamentos (a cantina da arena tem um dos melhores pratos feitos (PF) e bolo de chocolate do Rio de Janeiro) – que trazia também um desafio enorme de acolher todos em um parque com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) – como acolher no mesmo espaço população, artistas e a polícia militar? Como romper barreiras institucionais da PM e promover um acolhimento afetivo à população? Como se tornar um porto seguro em meio aos complexos da Penha e do Alemão? Como encorajar a população a entrar no Parque?

Esses desafios foram respondidos com muito trabalho. Tendo como objetivo principal construir uma relação comunitária e fazer com que todos se sentissem à vontade no espaço desenvolveram algumas ações com resultado efetivo que gostaria de destacar:

– Estabeleceram um comitê misto de órgãos diversos da prefeitura para diálogo permanente com a equipe da UPP;

– Articularam com os agentes comunitários de saúde da região momentos de divulgação da programação e pesquisa de satisfação com a população local;

– Articularam com as escolas públicas da região para participação permanente na programação;

– Desenvolveram ações continuadas para o público infantil e para a família;

– Desenvolveram programas para desenvolvimento da cena local como o Teatro da Laje – residência para formação de jovens no campo das artes cênicas – liderado pelo professor Veríssimo Jr.

Em paralelo às ações para construção de relação comunitária, havia a preocupação com a programação ofertada à população e a formação de novas plateias para a cultura. O programa de fomento à cultura carioca – que tinha como exigência a circulação de espetáculos especificamente nas APs 3, 4 e 5 – ampliou a programação e a diversidade de linguagens, possibilitando ainda a construção de relação e vínculo afetivo entre produtores culturais da cidade e o equipamento.

A Arena Carioca Dicró, com uma gestão jovem, corajosa e arejada, tornou-se o “ponto de encontro” da região, o lugar onde jovens marcavam ensaios de dança no pátio, onde senhoras marcavam encontros no café, onde artistas passaram a querer estar e onde a equipe gestora se diluía no público, tamanha a identificação, cuidado e envolvimento. A Arena Carioca Dicró era a segunda casa de todos.

A importância de um equipamento cultural público é ser o meio para a reconquista ao direito à cidade em sua plenitude – com diversidade, colaboração e, sobretudo, afeto.  A partir do momento em que um equipamento acolhe um cidadão, ele se torna motor para o avanço da sua ocupação e existência na cidade.

A cidade a gente preserva ocupando. E ela é de todos nós.

Post por Nyl de Sousa

 

 

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