Memórias da Dicró – Carlos Henrique

carlos henrique

Olá gente! Esperamos que esse texto lhes encontrem bem =)
Hoje vamos iniciar uma série de posts aqui no blog, a partir de textos de pessoas que fazem da Arena Dicró ser o que é. Porque quem faz esse lugar acontecer são as pessoas. A vida única de cada indivíduo que pisa aqui e em coletivo faz esse espaço pulsar. Seja na platéia, no palco ou no boteco.

Começamos com o texto do amigo Carlos Henrique.

Daquilo que fui. Daquilo que sou.

Lembrar o passado, memórias que voltam e tempo que passa e não quer passar. O ser humano não existe sem suas memórias. Há aqueles que lembram o passado lamentando o presente, nostálgicos do que foi e não voltará. Saudosismo. Sentimento este que nos leva a condição de ver no presente em que o único caminho é o desamparo de quem tem seus afetos presos ao passado. Mas existe outra forma de relação com o passado que traz à memória aquela experiência como repetição não do mesmo. Um presente do passado, um passado sempre presente, retomado na lembrança. Lembrança esta que nunca é uma repetição do mesmo, mas uma repetição da diferença, de lembrar para frente. Isso é esperança.

Estava em minha casa no bairro de Cordovil, olhando o feed de notícias do Facebook, esperando um sábado à noite em que tudo pode mudar. Afinal, todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Olhando as postagens encontrei um evento de música no parque, o “pós praia” na Arena Carioca Dicró, na Penha. Lembrei-me de um amigo que havia recomendado o lugar. Coloquei uma roupa e fui. Esperava alguma coisa daquele sábado. Chegando ao lugar, vi aquela atmosfera que destoava um pouco da região. Cartazes nas paredes com eventos artísticos, uma recepção e uma cantina aconchegante com mesas de madeira e toalhas coloridas. Sem contar a decoração com um lustre usando material reciclável, como nunca havia visto antes. Havia um show de voz e violão tocando MPB e samba. Peguei uma cerveja e passei o fim de tarde e a noite ali. Surpreendentemente o evento não encheu a casa. Havia uma peça teatral infantil no teatro e as pessoas foram saindo e parando no “boteco do parque”, mas logo foram todos embora. Fiquei sozinho no com os músicos, que olharam entre si e continuaram a cantar. Se a primeira impressão é a que fica, eu não deveria ter voltado. Mas quem precisa de casa cheia? Aquela música, aquele lugar aconchegante e aquela cerveja era o que eu precisava. Logo a Arena Dicró se tornaria uma extensão do meu quintal, onde vivenciei muitas experiências que ficarão para sempre na minha memória afetiva.

Esse lugar foi para mim um lugar onde convivi, conheci pessoas e passei a repensar minha relação com o lugar em que nasci. Eu vislumbrava vida cultural e sociabilidades apenas do Centro para a Zona Sul. A Arena me fez romper e reinventar meus trajetos, me levando a ver poeticamente a zona norte. Ali conheci o Samba de Benfica, um grupo de samba que logo me levou a rodar por outros canteiros deste quintal bonito que é a Zona Norte. Não somente música, mas teatro, cinema, dança e contação de histórias, embalaram muitas tardes minhas e de minha sobrinha. Nessas andanças tivemos Lenine, Fernanda Montenegro e um show maravilhoso da Orquestra Voadora, além de festivais de rock, rodas de samba, festas juninas e as tardes mensais de chorinho aos domingos. Tudo isso na Penha. O sol se escondendo atrás do morro no fim das tardes com as crianças correndo pelo pátio nunca sairão da minha lembrança. Fui muito feliz nesse território, que para além de um equipamento de cultura, sempre será lembrado como lugar de beleza, amizade, afeto e vivências. Vida longa para a Arena Dicró e toda sua equipe. Eu sou um pouco do que vocês foram para mim naqueles dias.

 

Publicado por

Nyl de Sousa

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