Teatro da Laje na Arena Carioca Dicró

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ENTREVISTA COM VERÍSSIMO, DIRETOR ARTÍSTICO DA RESIDÊNCIA DO TEATRO DA LAJE: “PARA FORA DA VILA CRUZEIRO E SEU ENTORNO, PROVOCAMOS SURPRESA.”

Por: Raize Souza (Arena Carioca Dicró)

Fotos: Carolina Meirelles

A laje nas favelas é lugar de encontro, de tomar banho de mangueira, de fazer festas com os amigos, e na Vila Cruzeiro, também é lugar de fazer arte. O grupo Teatro da Laje, criado em 2003, propõe mostrar o cotidiano dos integrantes da companhia teatral e o modo como eles enxergam o mundo no palco.

No currículo, apresentações em grandes locais – como CCBB, Planetário da Gávea e Arena Carioca Dicró – além de ter sido ganhador do Prêmio Cultura Viva (em 2006), o grupo tem quebrado barreiras geográficas na cidade e faz um teatro singular.

O professor, diretor artístico, e fundador do projeto – Antonio Veríssimo – abraçou a Vila Cruzeiro como seu lar. Veríssimo é recifense, de uma favela chamada Peixinhos. Migrou para o Rio de Janeiro e cursou artes cênicas, depois fez concurso para professor de escola pública e trabalha há 15 anos no local. E foi nesse lugar acolhedor que o Teatro da Laje começou.


Arena Carioca Dicró:
O que é o Teatro da Laje?
Veríssimo:
Somos uma companhia de teatro de forte ligação com a territorialidade, em que os atores e a plateia têm laços prévios, compartilham e interagem. Buscamos sair do engessamento através de um jogo cênico despojado.

Arena Carioca Dicró: Como surgiu?
Veríssimo:
Surgiu das minhas aulas de artes cênicas numa escola pública. Os experimentos que surgiram em sala eram muito bons para que morressem ali, sem compartilhar. Chamei alguns alunos e ex-alunos que tinham interesse, e em 2003 oficializamos o grupo.

Arena Carioca Dicró:
Qual a Sede?
Veríssimo:
Nossa sede própria é na Rua A, nº 46 na Vila Cruzeiro. Mas algumas atividades (residência) realizamos na Arena Carioca Dicró, na Penha.

Arena Carioca Dicró: Quais objetivos?
Veríssimo: Trazer as contribuições da juventude e das práticas cotidianas das favelas cariocas para uma forma contemporânea de fazer teatro. E reforçar as que já existem, sem um ranço acadêmico; Mostrar que é possível existir um centro de pesquisa e investigação na periferia. Que podemos e somos um espaço produtor; Fazer teatro de repertório (construir um catálogo de peças para apresentar).

Arena Carioca Dicró: Quais são as principais ações do grupo?
Veríssimo: Nossas principais ações são pesquisa (história do teatro, formas de fazer teatro e sua linguagem e especificidades), investigação e a apresentação de nossos produtos, através de espetáculos.

Arena Carioca Dicró: O que é o projeto de residência?
Veríssimo: A residência artística é uma parceria do Observatório de Favelas com o Teatro da Laje. O projeto prevê uma bolsa de R$900,00 para os participantes terem oportunidade de ampliar e aprimorar seus recursos expressivos, dar visibilidade, ampliar seu repertório e ter mais tempo para se dedicar.

Arena Carioca Dicró: O que muda com a nova possibilidade de residência artística?
Veríssimo: A parceria faz sair do amadorismo para a profissionalização, no sentido de poder viver de e para o teatro.

Arena Carioca Dicró: Quantos são? Como foi o processo de seleção?
Veríssimo: Atualmente são 17 participantes, mas o número tende a diminuir para 12, já que o projeto só contempla 12 bolsistas. Entretanto, aqueles que quiserem continuar mesmo sem retorno financeiro podem. (A data para avaliação ainda não está confirmada)

Arena Carioca Dicró: O que a Vila Cruzeiro representa para você?
Veríssimo:
Representa amigos queridos, por conta da Vila Cruzeiro encontrei meu caminho no teatro. O lugar me ofereceu temas, parceiros e elementos para me tornar o diretor teatral que sou hoje.

Arena Carioca Dicró: Vocês passaram por dificuldades ao longo do projeto?
Veríssimo: Antes da residência fazíamos “teatro de guerrilha”, mas não por opção estética, e sim por necessidade. Nos viramos muito fazendo gambiarras, como spot de lata ao invés de spot light. Fazer teatro numa área violenta também tem suas dificuldades. A circulação e retirada de material às vezes pode ser difícil por conta de um tiroteio. Mas hoje, apesar dessas e outras problemáticas me sinto satisfeito com os resultados, e me coloco novos desafios, pois acredito sempre num aperfeiçoamento.

Arena Carioca Dicró:
Qual o impacto do Teatro da laje para a comunidade e para fora dela?
Veríssimo:
Ao longo desses 11 anos, o Teatro da Laje conseguiu um público fiel. Colocou mais gente na Arena Dicró, sem nenhuma divulgação, do que Regina Duarte. Nas nossas peças, colocamos os jovens da Vila Cruzeiro falando de si e para si. E a plateia vibra quando vê isso. A comunidade acabou abraçando o grupo como seu, e nos não largamos a comunidade.

Para fora da Vila Cruzeiro e seu entorno, provocamos surpresa. Um grupo de atores na sua grande maioria de negros e mestiços, fazendo teatro que foge do teatro de catequese e apresenta uma proposta original, própria, que se notabiliza por desierarquizar a importância de elementos em cena. Logo, fazemos um teatro polissêmico e polifônico, em que tudo narra, e não apenas o texto.

E para a cidade como um todo, pela primeira vez o governo investe num grupo de periferia. Isso significa democratização, uma nova forma de olhar a cultura e do que merece ganhar investimento. Podemos ganhar muito com isso.

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