Arena Carioca Dicró e Rio em rede: SEXTAS DA CASA – uma experiência de constituição de fluxos artísticos na cidade do Rio de Janeiro

Por Isabela Souza, mestranda em planejamento urbano e regional no IPPUR/UFRJ
e coordenadora institucional da Arena Carioca Dicró.

 

A Arena Carioca Dicró é um espaço cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro, localizado no bairro da Penha, Zona Norte da cidade, gerido, via licitação pública, num contrato de junho de 2012 a maio de 2014, em cogestão pela Secretaria Municipal de Cultura e pelo Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.

Uma instituição como o Observatório assume a gestão de um espaço cultural na periferia citadina com o objetivo primeiro de intervir em processos que constituam em diversos planos as políticas de cultura pensadas para cidade e nela implantadas. O desafio, então, é criar um modelo de gestão de espaço cultural público que mobilize, forme, difunda e produza ações que caminhem na direção de uma cidade mais igualitária e que possa ser replicado em outros espaços similares.

Dentro desse contexto surge o Sextas da Casa, um projeto desenhado pela equipe da Arena Carioca Dicró para viabilizar que o palco principal do nosso espaço fosse ocupado periodicamente por artistas de origem popular, das favelas e bairros da Zona da Leopoldina, parte específica da Zona Norte onde estamos localizados. Nosso objetivo era que, através de um cachê, os artistas em questão trouxessem para o espaço cultural que gerimos, seus repertórios autorais e suas ânsias por possibilidades plenas de ocupação da cidade através de suas artes. A ideia era propiciar que os artistas donos da Casa – sentido de lar, morada, vivenda, lugar predisposto aos afetos e emoções autênticas e livres, a ocupassem e trouxessem para ela os seus amigos, seus convidados, para partilharem com eles e conosco esses momentos.

Propiciar, via uma parceria tão potente com o Rio em Rede, a primeira edição desse projeto/sonho foi um privilégio. Encontramos um parceiro para elaborar a infraestrutura necessária aos artistas, criamos com ele um processo justo de curadoria que já nos colocou de frente com tantos talentos que poderiam e mereciam ocupar as noites de sextas da Casa e constituímos mais do que um evento semanal: fizemos do Sextas da Casa um conjunto de ações que abriram espaços múltiplos para que o grupo das dezesseis apresentações selecionadas realizassem trocas e se colocassem no cenário musical e artístico da cidade a partir de momentos distintos.

O Sextas da Casa foi composto por três ações centrais: os shows, os Diálogos Culturais de Quinta e os Saraus artísticos. O primeiro representava a ocupação do palco principal da Arena pelas apresentações elencadas pela curadoria artística e técnica do projeto; os Diálogos foram encontros entre os artistas envolvidos nas apresentações e demais interessados no debate do cenário cultural carioca; e os Saraus foram espaços criados dentro dos dias de apresentações para que outros artistas e linguagens fossem trazidos e compusessem, junto com os dois shows principais da noite, a programação de sexta-feira. Nesse sentido, o Sextas da Casa representou uma série de convocatórias para sujeitos culturais de nossa cidade se deixarem provocar por ações que foram pensadas e elaboradas para trazerem à cena os próprios sujeitos culturais, seus processos de criação, o cenário atual de produção cultural carioca, bem como ações diversas no campo da cultura que disputam simbolicamente a constituição de legitimidade para novas formas de pensar e produzir cultura hoje.

Os shows foram apresentados ao público a partir da composição de duplas e essa montagem deu prioridade à possibilidade de diálogos de estilos serem realizados. Interessante é destacar a escolha de quase todas as duplas de realizarem uma parte da apresentação juntos e oportunizaram que o encontro fosse real, no sentido da doação de ambos para composição de um momento de interação entre estilos e artistas.

Os Diálogos Culturais de Quinta foram pensados para que fossem propiciados campos de discussões variados, a partir do máximo possível de linguagens. Atrelado aos shows, pensamos um espaço que compusesse com as apresentações musicais a possibilidade de ser enxergada a descentralização da produção cultural e a garantia de debates sobre o espaço para o novo, o diferente, viabilizando, assim, sua expansão. É nesse sentido que as manifestações artísticas realizadas nas apresentações do Sextas da Casa, bem como o espaço do Diálogos Culturais, são, ao mesmo tempo, reflexões acerca do que é arte e sobre o que é fazer arte na cidade-mundo em que vivemos.

Para os debates pensamos um formato que possibilitasse discussões horizontais, trabalhamos em roda, com grupos pequenos e não chamamos palestrantes. Nosso objetivo era criar um clima de intimidade entre os presentes que os levasse às discussões a partir de suas vidas artísticas cotidianas. Para dar o norte às falas e incitar os presentes convidamos “provocadores”, pessoas que têm em seu histórico processos individuais, artísticos e ou acadêmicos que poderiam contribuir e enriquecer a conversa proposta e atuarem, de maneira geral, com suas falas, como dispositivos de fomento ao debate.

A primeira roda de debates que realizamos foi dia 13 de junho, seu tema geral foi a “Produção cultural na Zona da Leopoldina: histórico e perspectivas” e os provocadores convidados foram Veríssimo Jr, na ocasião diretor do grupo de teatro Teatro da Laje, e Adriana Facina, historiadora e antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense. No dia 18 de julho realizamos a segunda roda de debates, cujo tema era “O artista independente, redes colaborativas e novas formas de trabalho”. Com o objetivo de pensar a figura do artista independente em tempos de mídias digitais e comunicação horizontal, convidamos para realizarem o papel de provocadores três diretores teatrais: Marcus Galinã, diretor da Companhia Monte de Gente, Zé Alex Oliva Jr., ator e diretor da Companhia Enviezada, e Fernando Maatz,diretor da Anti Companhia de Teatro.

Os momentos de Saraus foram oportunidades incríveis para que outros artistas, de outras linguagens, que não a musical, trouxessem para os dias de shows do Sextas da Casa, suas contribuições para a criação de um evento híbrido em manifestações artísticas. O clima festa em casa tomou conta dessas ocasiões: nesses momentos sentimos que a casa estava de fato aberta e que todos eram bem-vindos para fazerem dela o quintal/palco de seus sonhos e projetos artísticos.

Enfim, o Sextas da Casa e seu conjunto de ações representou para a Arena Carioca Dicró a possibilidade de discutir cultura em seus processos de formação, mobilização, difusão e produção e acreditamos que as ocasiões desenhadas no conjunto desse projeto trouxeram até nós e nosso público uma série de reflexões acerca dos mesmos. Foram momentos híbridos em linguagens culturais e perspectivas de olhares possíveis e a riqueza, em nosso ponto de vista, está justamente na possibilidade de eles estarem juntos viabilizando produtos e análises culturais.

Os desafios que se colocaram às nossas equipes e também ao conjunto das produções musicais que se apresentaram durante o Sextas da Casa foram muitos e ficou claro para todos nós que os sujeitos artistas da cidade precisam se deslocar, criar estratégias múltiplas para disputa-la e ocupa-la. É incrível poder fazer parte de momentos que fomentam essa ampliação do campo, com seus deleites e desafios.

Por último, não há como celebrar essa edição do Sextas da Casa sem agradecer aos músicos da Zona da Leopoldina, todos os que se inscreveram, pela confiança e pela entrega ao processo. Estendemos nosso agradecimento aos parceiros do Rio em Rede, que acreditaram conosco nesse sonho e se empenharam integralmente para torna-lo possível: de fato criamos uma vitrine de músicos da Leopoldina e brindamos com nosso público uma maneira única, e em contínua elaboração, de produção, mobilização e difusão das culturas musicais de nossa Casa. Até breve.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *